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CORAÇÃO DIVIDIDO

Na bala da palavra

17:17:26, FEV 02, 2020 Fonte:

 

 

     Me graduei naquele ano de 1.990. Aguardava a formatura dela, que seria três anos mais tarde.

Moça criada na cidade grande, inicialmente admiradora virtual de paisagens que via nas revistas. Com o tempo, foi transformada numa curtidora intensa da natureza e dos nossos arredores de cá das Gerais. Já tinha trazido ela pra passear entre meus vínculos, e meu coração tinha descoberto que ela estava no meu futuro.

Por outro lado, sempre tive a mente direcionada à minha terra, de onde saí olhando para trás, enxergando como se minhas raízes aguardassem meu retorno. Mas, agora, desejava meu retorno junto dela.

Criei sua inclusão pintando seus traços à força, no quadro e num pedaço de minha infância, mesmo sem conhecê-la antes de meus 22 anos. Ficou real e verdadeiro.

         Naquele momento de minha volta, ela, sutilmente, mostrava pra mim seu coração dividido entre meu porto seguro e o além-mar de suas possibilidades. Mas, perceber isso não fazia parte de meus planos: meu coração não estava dividido. Tinha certeza que queria voltar e a queria perto de mim.

       Voltei.

      De início, comprei de um amigo, uma moto Honda XLX 350, branca e vermelha, conservadíssima, e passei a rodar nela pra onde quisesse.

     Aí foi fácil aspirar de novo o sabor das matas daqui, que tornaram a me arrepiar. Ouvi o canto doce do sabiá, como se fosse o mesmo cantor que havia deixado há dez anos, sem me despedir.

      Tornei a nadar no açude enorme. Um lago.

     Voltei na cachoeira que fica no canto da fazenda, onde nasce a água que alimenta o açude. Passeei sozinho pelos mesmos lugares e da mesma forma solitária como antes, de novo.

Desenhei sabores e cores na casa da fazenda e em seu redor.

      A casa é grande, fica no alto e no meio do terreno, é avarandada do lado norte e oeste.

Na parte virada para o por do sol, a varanda tem uns doze metros de comprimento com a porta de entrada pela cozinha e duas grandes janelas ao lado da porta. No fundo da casa, ao sul, tem um pomar com muitas árvores meio escondidas de quem está na varanda, que prossegue também na parte da casa voltada para o norte. A vista de toda a varanda é fascinante.

    De mobília, uma mesinha feita sobre uma espécie de carretel enorme, daqueles usados para cabos elétricos. Ao lado, uma cadeira de balanço que foi de minha avó. Completa o quadro, uma rede, um banco de madeira de uns três metros de comprimento encostado na parede, e outra mesa de madeira, enorme, com três metros por 1m20cm, bem maior que a de carretel. Sobre a mesona, além daqueles cestinhos de enfeite com flores e ramos desidratados, ficava uma bilha de barro, já curtida pelo tempo e uso, usada pra colocar água potável.

      Naquela época, a internet nem existia por aqui, e quase não havia fazendas com energia elétrica. Celular, também, só os astros do basquetebol norte-americano utilizavam na televisão. E eram daqueles tijolões iniciais que somente falavam em cidades grandes. Pra ouvir a voz dela, somente por telefone fixo. Como não dispunha de telefone rural, em todas as noites que estava na cidade, ligava.

      Enquanto esperava sua vinda, diversos crepúsculos na varanda  criaram saudades de coisas que nunca vivi, de coisas que deixei de ser, do que sonhei e se escondeu atrás das portas de entradas e saídas da minha vida, como se algo me espreitasse, deleitando com meus sentimentos. Tristemente abstrato.

        Vivi sonhando em abraçá-la, às vezes em paz, às vezes rebelde. Mil histórias e poesias levadas a ela pelo ar, mas sempre repousadas em minha mente criadora.

Muitas vezes sentava à tarde na varanda, na cadeira de balanço com os pés na mesa-carretel, de onde olhava pro alto e, vez por outra, algum jato passava riscando o céu, me fazendo sentir como se alguém no avião me visse sentado pra levar a ela a notícia do meu desencanto solitário.

      Nalgumas vezes, dias de alegria na espera. Noutras, noites em claro na varanda. E noutras, ao relento escuro quando pegava o violão e a cadeira de balanço pra me sentar sob o teto de estrelas a quem eu cantava, como se ela fosse uma delas e me pudesse ouvir, mesmo distante.

    Toco uma harmônica desde os tempos de faculdade. Gaita é amiga do violão, mas é instrumento provocador de sons extremamente tristes. 

        De parceiros, dois cães: Túti, um pequeno vira-latas ligeiro e perspicaz, e o Bob, da raça americana, que uivava de tristeza com o som da gaita. Parece que também chorava a ausência dela.

        Minha solidão prendia o tempo.

 Dez anos pra cá. Quanta coisa...

       Me lembrei da frase de John Wheeler. O tempo "é o jeito que a natureza deu para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só.

        A bem da verdade, o tempo não flui. O tempo simplesmente é. E é muito mais misterioso e sutil do que podemos imaginar.

Voltei em janeiro de 1.990 e era abril, somente quatro meses depois. Nunca tinha sentido quatro meses tão lentos em minha vida.

Em nossas conversas e choros via telefone, consegui traçar o deleite de meus sentimentos. Ela viria, em maio. Sabia o caminho da cidade grande até Piumhi. De Piumhi até a casa dos sonhos.

      A ansiedade quase me matou no aguardo dela, que não marcou o dia certo de sua chegada. Somente a semana. Fez isso de propósito, pra me deixar louco.

      Numa sexta-feira, de manhã, enquanto eu acabava de soltar uns garrotes do curral, vi surgir na estrada um carro branco, diferente dos carros que víamos na região, abrindo a poeira de maio por onde passava.

        Deixa a estrada principal e entra no caminho da fazenda.

       Era um Suzuki Vitara, 4x4, branco, com a motorista mais linda que alguém podia imaginar. Desceu com seus óculos escuros, como que de uma atriz de cinema, me fazendo pensar que meu coração não suportaria a velocidade dos batimentos. Nos abraçamos, e eu, suado, empoeirado, delirante de alegria e saudades, prendi nela minha visão enquanto beijamos e rodopiamos, até cairmos na poeira em gargalhadas.

         Os peões paralisados com a cena.

       Apresentei a eles rapidamente, que perceberam que eu não tinha a menor condição de coordenar as coisas naquele dia. Mesmo assim, não esqueci de lhes pedir que providenciassem toras de madeira, puxassem-nas para o terreiro próximo à varanda e as empilhasse, além de deixar uma latinha com óleo diesel pra que eu fizesse uma fogueira à noite.

        Entramos na casa, ela tirou as botas chiques que calçava e colocou os lindos pés pra cima. Pouco depois, se levanta pra me mostrar o Suzuki Vitara, carro que ela tinha acabado de comprar, que eu gostei tanto que, anos mais tarde, acabei comprando um igualzinho pra mim.

      E deixei ela na mesa da varanda, enquanto a cozinheira Cleide já lhe servia um café feito na hora, no fogão à lenha, com pão de queijo, bolo de fubá e queijo fresco, enquanto eu voei para o banho rápido, tentando ficar mais próximo do cheiro dela.

      A partir de então, somente ilusões do coração brotaram e surgiram dos sonhos inacabados, roçando meus sentimentos reais e irreais.

      De almoço, Cleide nos serve aquela comida mineira.

Um pouquinho pra descansar e começamos o trâmite rural. Passeamos a cavalo visitando a região mais próxima por estradas secundárias, e levei ela nos meus cantos poéticos pra encantá-la.

       Chegamos à noite, com a lua cheia vermelha, enorme, iniciando seu percurso pelo céu e indicando nossa estrada de volta. Descemos dos cavalos, soltei-os e entramos na casa.

        Enquanto ela tomava seu banho, acendi a fogueira enorme, pra esquentar o local, pois já estava iniciado o frio de maio, agravado pela brisa cortante que sentimos no rosto enquanto montados nos cavalos. Apaguei todas as luzes da casa, liberei Cleide pra ir pra casa dela, que fica a poucos metros da casa sede. Ela riu, compactuando comigo.

      Abri uma garrafa de vinho tinto seco, coloquei na mesa escura da varanda, com duas taças. Tomei um banho a jato no social e consegui terminar antes dela, que ainda se enfeitava com seus cremes e secador, em ato normal de mulher.

       Ela saiu do banho e se assustou com a escuridão. Acalmei-lhe, tomei suas mãos e lhe conduzi até a porta da varanda, de onde viu a fogueira enorme, deslumbrante, associada com a lua. As duas juntas, fogueira e lua, iluminavam a cena das penumbras naturais que remexiam inquietas, acionadas pelo desenho flamejante do fogo.

      Sentamos próximo à fogueira com duas cadeiras daquelas de fios plásticos trançados sobre metal preto, ao lado da “mesinha-carretel”. Servi o vinho nas duas taças, que brilhavam entre a penumbra, fogueira e luar.

       Peguei o violão ao lado e, de cara, cantei “Clube da esquina 2”, dos irmãos Lô e Márcio Borges: ...“E lá se vai, mais um dia. E basta contar compasso e basta contar consigo que a chama não tem pavio. De tudo se faz canção e o coração na curva de um rio, um rio, um rio, um rio”...

        Deslumbrante. Até as duas, e cama.

        No outro dia, acordamos cedo, bebemos o tradicional leite ao pé da vaca e café de roça.

      Pós-café, montamos na moto, óculos escuros, sorrisos largos, semblantes felizes, saímos rosetando pela região.

      Levei ela até o Rio São Francisco, onde vimos a correnteza com a água barrenta, e alguns lugares com grutas calcáreas que evitei entrar pra não perder muito tempo num mesmo lugar.

E rodamos, e paramos em lugares com vistas chocantes de beleza, e fotos de chapadas, e da Serra da Canastra ao fundo. E rodamos mais. E paramos num bar rural da região.

Guaraná “Pequetito”, servido geladíssimo, daqueles de garrafa igual à de cerveja. E sentamos ao lado da mesa de sinuca com as pernas pro alto. Almoçamos naquele lugar, e ainda cochilamos um pouco no sofá da casa deles. Jamais me esqueci disso e fiquei eternamente grato ao casal.

        Conta paga, cerca de uma e pouco da tarde, voltamos pra casa. Bebemos água fria e moto de novo.

       Levei ela até a nascente. Paramos na entrada da trilha. Subimos juntos até a minha cachoeira. No meio do percurso, sentamos numa pedra, nos beijamos e fizemos amor na pedra grande. Meu parceiro Sabiá se incumbiu de providenciar o fundo musical apresentando seu canto doce. Eu não ouvia: somente sentia. Tudo naturalmente surgido, como se estivéssemos cumprindo o roteiro de um filme estrelado somente por nós dois.

        Banho de cachoeira. Água gelada de maio. E gargalhadas pelo arrepio da água gostosa.

        Descemos.

     Na moto, de novo, até o lago do açude. Andamos um pouco ao redor. De mãos dadas, conversando, beijando, curtindo toda a emoção que não ditava qualquer tipo de regra.

        Tínhamos a solidão como aliada. Ninguém por perto.

Sem roupas de banho, tiramos as roupas e nadamos de roupas íntimas. Mergulhamos no açude. Dentro dágua, tiramos o resto e jogamos na beirada. Fizemos amor de novo.  

Tinha a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

       Secamos, nos vestimos e saímos ao léu, de novo.

      Vislumbrava, olhando pra ela, seus cabelos ao vento, seu olhar de satisfação, o tom dos olhos profundos num misto entre sonho e realidade distante.

     O tempo passava rapidamente e me obrigou iniciar uma travessia de meu sonho para a realidade. Em minha mente, a música Ventura Highway, do grupo britânico, America: Ventura Highway in the sunshine. Where the days are longer, the nights are stronger than moonshine. You're gonna go I know, cause the free wind is blowin' through your hair, and the days surround your daylight.

     A tradução é fácil: ”Estrada da aventura ao brilho do sol; onde os dias são mais longos, e onde as noites são mais fortes do que o luar. Eu sei que você vai partir, porque a brisa do vento está soprando nos seus cabelos, e os dias andam cercando sua luz...”.

     Naquele momento, passei a entender, percebendo que ela, sutilmente, me mostrava que seu coração não estava mais dividido entre meu porto seguro e o além-mar de suas possibilidades. Estava seguro e voltado somente para o além-mar.

     Vi que nossos motivos ficaram perdidos entre nossos olhos e nossas vidas, que tomaram rumos diferentes. Senti que não perdi quase nada; somente a ilusão de que tudo podia ser meu pra sempre.

        Naquele dia meu coração não sabia direito o meu futuro. Mas, sabia que ela não estava mais nele…

 

 

COELHO JÚNIOR, Cândido. Na bala da palavra: crônicas e letras (p. 93-99) – São Paulo : Scortecci, 2014. – 1ª ed.

 

Cândido Coelho Jr.

 

Cândido Coelho Jr.

Crônicas e Causos.
Escritor, Bacharel em Direito, pós-graduado em Processo Civil, Direito Civil, do Trabalho e Direito Público.
Autor do livro NA BALA DA PALAVRA, Crônicas e Letras. São Paulo: Editora Scortecci, 2014.


Cronista apaixonado pela vida, é cristão presbiteriano, humorista nato e tem a família como base de toda e qualquer sociedade.
Por outro lado tem uma memória dotada de refinada capacidade de observação mesclada à mente fértil, que funciona como poderosa usina de sonhos.
Sustenta que escreve pra dizer que sabe do que gosta e gosta do que sabe.

canditur@uol.com.br

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