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No sótão da mente

11:16:47, MAR 03, 2020 Fonte:

        Hoje, 14 de julho de 2.014, de férias do trabalho, pós retorno de viagem, “segunda feira braba”, à toa, após dormir e assistir filme a tarde toda, acabei me surpreendndo assistindo um documentário do canal Animal Planet sobre extinção do mico-leão-dourado, raça acuada pela invasão de sagüis na Mata Atlântica.

 

      Pra dizer a verdade estava até gostando do documentário até que me veio à mente: – Que falta de ter o que fazer!

 

      Constrangido comigo mesmo, passei a odiar micos, em todos os sentidos.

 

      Desliguei a televisão, abri a janela do quarto, tornei a me deitar e, barriga pra cima, sem ter o que fazer, me pus a revirar o sótão de minha mente.

 

      Fui encontrando casos entulhados, desde tenebrosos, passando por sensuais a cômicos, enveredando pelos vexatórios até chegar nos saudosos.

 

      Como “cabeça à toa é oficina do diabo”, acabei me embrenhando por lembranças perigosas e, numa delas, me deparei com uma namorada que tive na adolescência.

 

      Linda, cheirosa, e inteligente (lembro que ela lia Machado de Assis com 15 anos de idade). Postura admirável, romântica, sensual, educada e compreensiva. Quantas luas e canções desenharam nossos sonhos...

 

      Com tempo de sobra na “oficina do diabo”, entrei na internet visando buscá-la no facebook, não para entrar em contato, mas para revê-la, pois passaram-se décadas desde a última vez. Continuaria com tantas qualidades ou pelo menos parte delas?

 

      Encontrei-a e fui descobrindo uma série de coisas.

 

      Casou-se e tem três filhos.

 

      Ama cachorro dentro de casa: tinha dois canídeos, um Schnauzer (pelos comentários chorosos no estilo “está no céu dos cães”, o cachorrinho morreu há pouco tempo) e outro que me pareceu um Golden retriever, de pelos longos, e bem vivo, pelos comentários. Comentário do marido resmungando dizendo que ela dorme com o cachorro entre as pernas na cama deles, obtendo a resposta confirmativa adicionado ao “não me encha o saco”; prossegue o pobre maridão dizendo que ela dá mais atenção ao cachorro do que a ele.

 

      Rapidamente pensei: será que em dia de chuva ela dorme com esse cachorro por entre as coxas?

 

      Continuei escarafunchando e me deparei com uma foto recente de seus três filhos, “os lindos da mamãe”. Realmente são muito bonitos, mas na foto me pareceu mal vestidos e sujos (uma menina e dois meninos e, um deles, com o nariz literalmente escorrendo); os três com cara de carentes, com o semblante revoltado e com a impressão de mal cuidados.

 

      Noutras fotos, fui reparando outras coisas: a casa passa a impressão de não ser muito organizada, com brinquedos e cadeiras espalhados e numa das fotos vi uma toalha secando dependurada na porta de um cômodo (tradicional imagem de república de estudante); deu pra reparar que a família tem uma vida econômica de qualidade, pois a casa parece ser boa e, numa das fotos, ela, com um dos filhos, na garagem da casa, estão ao lado de um carro que parece custar um bom dinheiro.

 

      Noutra ilustração, ela, sorridente (continua com um sorriso lindo) acompanhada do cachorro.

 

      Vendo essas fotos que mostram boa parte da vida dela, não teve como eu fugir das análises pessoais.

 

      E se eu tivesse me casado com ela, como estaria vivendo?

 

      De cara percebi que atualmente nossos valores íntimos e seus reflexos são consideravelmente antagônicos. Tão antagônicos que acabei tento dificuldade em entender que éramos as mesmas pessoas. Não consegui concluir sobre o quê eu realmente vivi ou sobre o quê tinha pra mim valor de verdade.

 

      Me recordo que era louco por ela, mas passei a me perguntar se não eram sonhos as tantas virtudes que ela tinha. Ou será que mudamos tanto de gosto e preferências?

 

      Provavelmente, ou a forte paixão me impedia de enxergar essas nossas diferenças ou, pelo lado dela, essa mesma paixão fazia com que ela me acompanhasse gostando de tudo o que eu gostasse.

 

      Paixão cega, colore, descolore, e desenha nossos sonhos como se fossem o objetivo certo a ser alcançado ou, mais precisamente, apaixonados, enxergamos a pessoa como gostaríamos que ela fosse e não o que ela é de verdade.

 

      Vou copiar uma frase de Carlos Drummond de Andrade: “Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer.”.

     

      Por outro lado,       sei que ninguém faz nada de graça e, toda e qualquer vontade almeja algum tipo de pagamento, não só de coisas materiais, mas também de valores pessoais, que diferem de pessoa pra pessoa: o que serve pra uma pode não servir pra outra.

 

      Nesse sentido, ao amadurecer, passei a sentir a necessidade do conforto e a valorizar mais os pequenos prazeres da vida prática; esses últimos, além de passar a ser importantes, também passaram a se impor sobre mim e, definitivamente, não são os mesmos dela.

 

      Concluí que deveria ter ficado somente nas lembranças de duas décadas atrás, com a última imagem dela. Isso faria com que ela sempre fosse a princesa inteligente, cheirosa, e linda, ao invés de se transformar na mulher bem diferente que se tornou e que, por sinal, entrou na minha mente e chutou a princesa linda pra fora das lembranças.

 

      O certo é que homem somente gosta de mulher bonita – isso é pré-requisito. Ela pode até ser feia, mas o homem apaixonado a enxerga linda, senão não serviria pra ele.    

 

      Com essa ideia, fui escarafunchando os cantos da mente na busca de casos de relacionamentos verídicos, meus e dos outros, e acabei lembrando que as mulheres não enfatizam os mesmos valores que os homens na escolha dos parceiros.

 

      Por exemplo, nunca vi garoto exemplar ser bom com as namoradas. Explicando melhor: analisando meus amigos e conhecidos e seus amores vividos, não encontrei nenhum “garoto exemplar” que fosse bom com as mulheres. Sempre foram ou são valorizados pelas mães delas, mas não por elas. Uns até se casaram com as desprezadoras, mas até hoje muito pouco mudou em relação a isso.

 

      As mulheres, na realidade, gostam do cara que é inversamente proporcional ao garoto exemplar: gostam do sujeito meio malandrão.

 

      Não o crápula, o malandro propriamente dito, mas o malandrão que sabe levá-la pra tomar vinho ao luar; que canta alguma música que os marcou por algum motivo e que lhes abre a porta do carro pra ela entrar ou sair. E escreve poesias ou versos, ou lembra de outros poemas e versos de outros autores sussurrando-os no ouvido dela no momento oportuno.

 

      Por sinal, o malandrão passa a imagem de poeta. Não que isso signifique que ele escreve todas as frases que diz, mas sim que tem a sensibilidade de escolher frases e palavras que outras pessoas, sem perceber, disseram a ele.

 

      Finalizando essa crônica, verdade seja dita: É melhor ser malandro do que ser garoto exemplar.

 

      E nada é longo demais: Passados alguns dias, tudo cai no esquecimento.

 

      Fui...

Cândido Coelho Jr.

 

Cândido Coelho Jr.

Crônicas e Causos.
Escritor, Bacharel em Direito, pós-graduado em Processo Civil, Direito Civil, do Trabalho e Direito Público.
Autor do livro NA BALA DA PALAVRA, Crônicas e Letras. São Paulo: Editora Scortecci, 2014.


Cronista apaixonado pela vida, é cristão presbiteriano, humorista nato e tem a família como base de toda e qualquer sociedade.
Por outro lado tem uma memória dotada de refinada capacidade de observação mesclada à mente fértil, que funciona como poderosa usina de sonhos.
Sustenta que escreve pra dizer que sabe do que gosta e gosta do que sabe.

canditur@uol.com.br

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