Notícias

CERTA NOITE DE SOLIDÃO

Crônicas

15:17:19, ABR 04, 2020 Atualizada em 17/04/2020 às 15:04:01 Fonte: Divulgação
Cronista apaixonado pela vida, é cristão presbiteriano, humorista nato


CERTA NOITE DE SOLIDÃO

 

Vez por outra não vejo companhia mais companheira que a solidão.

Gosto de senti-la, de vez em quando. De vez em quando, pois tê-la como moradia é péssimo.

Faço questão de senti-la voluntariamente, mostrando a mim mesmo que a domino, despedindo-me dela sempre que não a quero.

Sei que ela é mais do que o sentimento de querer companhia. Saudades e recordações sempre lhe aumentam e todas as vezes que aparece, costuma andar de braços dados com o silêncio e, os dois juntos, me fazem divagar e criar meios de liberdade.

Não tem ninguém comigo em casa agora.

Solidão e silêncio chegaram dizendo que tenho nuances de loucura.

Passei a pensar em mim mesmo.

Como é que as coisas me vêem à cabeça pra eu materializá-las em letras e palavras? Histórias, casos, poesias, palavras e melodias, tudo chega sem me avisar e sem me explicar como faço pra encaixar umas nas outras.

Todos eles têm sentimentos ou, pelo menos, trazem sentimentos.

Às vezes trazem melodias, pedindo pra serem musicadas. Como e de onde surgem essas melodias pra encaixar as palavras nelas?

Não se pode exigir qualidades poéticas de um cronista. Mas, me pergunto: e se ele escrever poesias? E se for músico e compositor?

Percebi rapidamente que posso conferir a forma musical vinda das frases que escrevo, principalmente quando as encaminho rumo a melodias pras músicas que faço.

Acabei concluindo que sou jazístico (de jazz): não tenho estilo definido. Tanto as frases que crio quanto a soma dos acordes melodiosos que invento, sempre surgem à mercê do que sente meu espírito no dia ou momento que as faço.

Nem sempre sou alegre. Às vezes, sou sombrio; às vezes, crítico. Muitas vezes sou romântico e apaixonado. Noutras poucas vezes, amargo.

Mesmo assim, sei que o que escrevo é um pouco de sentido e sentimento, pra mim e pra quem me lê. Pode criar diversão, crítica, gelo na alma, sonhos, lembranças, fazer pensar qualquer coisa, dependendo do que é escrito ou lido e, principalmente, dependendo do estado de espírito de quem escreve as frases ou textos ou de quem os lê.

No entanto, sei que tudo é momentâneo. Nada que um breve tempo não apague: também concluí que ninguém se apega naquilo que é momentâneo.

Puxa, quanta divagação em minha mente...

De novo a solidão me acusa apontando isso como mais um nuance de minhas loucuras. Passei a rir dela, ameaçando despedi-la. O silêncio fez com que ela se aquietasse, pois ambos sabem que interpreto o mundo sob minha ótica, sempre imaginando possibilidades sem sacrificar qualquer faceta de minha personalidade.

Sentindo o calor dessa noite quente, como por encanto, ganho de presente um "apagão" de luzes por toda a cidade - fato que às vezes irrita, mas hoje, particularmente, me proporcionou satisfação.

Após o susto inicial da escuridão, saí pela casa tateando no escuro buscando e encontrando um radinho Mitsubishi antigo, daqueles que tem uma capa de couro marrom, a pilha, que só pega duas faixas: OM e AM. Encontrei uma lanterna daquelas recarregáveis, o que me ajudou achar pilhas para o radinho. Ele gasta quatro pilhas pequenas. Funcionou.

Procurei alguma rádio que eu considerasse boa, encontrei a Cultura AM, 1.200 khz, de São Paulo.

Fui para o quintal, me deitei de costas no chão de cimento, passei a admirar o céu estreladíssimo e acabei ficando embasbacado com a beleza gratuita que me era exibida pela natureza. Noite quente de lua nova. Só estrelas.

O nível de ruído da pequena e escura Piumhi estava próximo do zero. Somente ouvia o radinho como se fosse ele o único companheiro de minha solidão.

Da escuridão veio tocada uma música que conheço. Me recordo de uma fita k7 que gravei de programas das rádio FM quando morava em Belo Horizonte, no ano de 1.984. Sempre fazia isso e acho que ainda tenho algumas e, numa delas tem essa música gravada, que sei de cor, letra e música, mas nunca soube o nome da canção e muito menos quem é o compositor:

... fio de espada légua mais sem fim eu vim daquela estrela, te beliscar meu amor, só vim para mordê-la; no portão do paraíso berrei meu apoio: ó Rainha de Sabá, vem beliscar a toada, vem brilhar na trovoada; veste a seda, vem dançar...”

 

O característico chiado do som AM me fez suspirar enquanto ouvia: De quem será essa música linda? Esperei pra ouvir a informação, mas deitado ao relento e deslumbrado com o céu, não ouvi se o radialista disse.

Passei a analisar o céu.

Com quantas estrelas se faz um céu estrelado?

As imagens fascinam e atemorizam. Estou vendo os pontos de luzes que passam a me fazer sonhar. Passo a imaginar o céu estrelado como se fosse um pano aberto cheio de furos de luzes. Deslumbrantemente lindo e medonho pela sua imensidão.

Escolho uma estrela e imagino sua distância como se ela estivesse a 10.000 (dez mil) anos-luz. Será que ela ainda existe? Será que deixou de existir enquanto sua luz terminava a viagem de dez mil anos até mim? A luz é muito mais rápida do que o tempo...

Nessas elucubrações, percebi que do céu estrelado só estou vendo o passado.

Outro nuance de minhas loucuras.

Só o passado... Quanto passado espalhado pelo céu!

Tá certo que, segundo a Ciência Astronômica, não se permite ao observador mudar seu referencial de observação, ou seja, não é permitido a mim, como observador, deslocar-me para a rede de outro observador que eventualmente estaria situado mais próximo ao evento em questão, no caso uma das estrelas (que frase difícil...).

Deixa eu trocar em miúdos esse princípio da astronomia: eu, deitado no chão do quintal de minha casa, aqui em Piumhi, no Planeta Terra, não posso eventualmente me deslocar como se eu estivesse no ponto de observação de outra pessoa que porventura estivesse noutro planeta, por exemplo, a 50 (cinqüenta) anos-luz mais próximo de uma estrela qualquer do céu, mesmo que o tempo dele seja outro e o evento aconteça primeiro onde ele eventualmente esteja.

Mesmo assim, sou teimoso em meu posicionamento e análise: pra mim, a realidade indiscutível é que todas as estrelas que estou vendo nesse instante não passam de um passado. Estou admirando o formidável passado em milhares de luzes presas ao céu. Passados longínquos e passados próximos, sem saber diferenciá-los. Mas, que são passados são.

Me lembro de um dos  “Fragmentos”, do escritor futurista russo Vladimir Maiakóvsky:

 

Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu!

Em horas como esta eu me ergo e converso com os séculos a história do universo.

 

 

Que arrepiante. Aproveitando a idéia de Maiakóvsky, passei a me imaginar juntando o antes com o depois, através do agora.

Passeando pelo céu da noite sombria, passei a sentir na boca o doce encanto das minhas ilusões.

Quem vive em meus pensamentos? Quem pode viver nos pensamentos de alguém?

Uma noite simplesmente dura a distância entre dois dias. Um dia dura a distância entre duas noites. Maravilhosas e repetitivas verdades que ocorrem indefinidamente sem depender de nós, mas sempre variando em sabor pra cada um que os vive.

A noite se mostra assombrosamente grande em tamanho, mas prazerosamente pequena em duração.

Concluí que, dos momentos tristes e das noites sombrias, guardo somente a experiência que eles deixaram, pois não passam de curtos intervalos entre minhas alegrias e dias. Isso me faz consumir frustrações e mágoas...

Nisso, a energia elétrica voltou. Clara e incomodativa.

Minha última conclusão: meus prazeres nunca são sombrios. Sou apaixonado pela vida...

Cândido Coelho Jr.

 

Cândido Coelho Jr.

Crônicas e Causos.
Escritor, Bacharel em Direito, pós-graduado em Processo Civil, Direito Civil, do Trabalho e Direito Público.
Autor do livro NA BALA DA PALAVRA, Crônicas e Letras. São Paulo: Editora Scortecci, 2014.


Cronista apaixonado pela vida, é cristão presbiteriano, humorista nato e tem a família como base de toda e qualquer sociedade.
Por outro lado tem uma memória dotada de refinada capacidade de observação mesclada à mente fértil, que funciona como poderosa usina de sonhos.
Sustenta que escreve pra dizer que sabe do que gosta e gosta do que sabe.

canditur@uol.com.br

Comentários

Voltar

Veja também