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Gran Circo Toradas de Madry

Crônicas - Cândido Jr

16:07:36, MAI 05, 2020 Fonte: Divulgação
Juca Faria não pegou nem resfriado na cidade e ganhou o apelido de “Bandidão”

Gran Circo Toradas de Madry

 

       Estava de passagem por São Roque de Minas, o “famoso” “Gran Circo Toradas de Madry”, escrito desse jeito na placa de entrada, no ônibus e nos carros de propaganda. 

       É um “circo de turiá” nos dizeres do público, ou seja, um circo onde se vê touradas, garrotadas e vacadas, pois não são somente touros que fazem parte do show – aliás, touros mesmo quase não são vistos – a maioria é garrotão e vaca brava, conseguidos com os fazendeiros da região.

       Desde a segunda feira os carros de som a serviço do circo berravam a propaganda circulante convidando o público para as “grandes e espetaculares touradas que aconteciam, com toureiros vindos diretamente de Madri”, mensagens acrescentadas com “e participação de toureiros regionais se apresentando”. Ou seja, qualquer um da cidade que porventura também quisesse participar, poderia.

       Para o sábado, no entanto, aproveitando o sucesso de um touro de nome Bandido, de uma novela da Rede Globo de Televisão, touro que ficara famoso por ausência de peão que conseguisse parar nele, pelo circo era propagandeado “o grande touro Bandido 2, vindo diretamente da televisão, fato que premiaria em R$ 1.000,00, o bravo toureiro de São Roque de Minas que tivesse a coragem de enfrentá-lo ficando “apenas” um minuto dentro da arena com ele”. O significado das aspas na palavra apenas é pelo óbvio: um minuto é uma eternidade dentro de uma arena ou qualquer outro lugar que alguém seja obrigado a ficar sem poder sair, principalmente nas possíveis circunstâncias do caso.

 

       Concomitantemente à temporada do “Gran Circo Toradas de Madry”, na cidade, transcorria solta a paixão de Juca Faria pela Selma do Zé Curisco, filha mimada de pai bravo, morena clara, olhos verdes, cabelos negros lisinhos, cintura fina e pernas grossas, em resumo, com características de beleza que provavam o ótimo gosto do apaixonado sujeito.

Juca Faria é produtor de queijo – como quase todo mundo em São Roque de Minas – e, mesmo tendo ganhado olhadelas, sorrisos e conversas satisfatórias, adicionadas às informações favoráveis passadas a ele por amigas da gata, ainda não tivera a coragem de “chegar na gata”, nem verbalmente.

       Por outro lado, Juca dominava seus amigos como chefe de turma e, na ânsia de ser bem sucedido com Selma, pensou e decidiu o seguinte: a turma divulgaria pela cidade a notícia que Juca enfrentaria o touro “Bandido 2”, no circo, em homenagem à Selma do Zé Curisco, com quem fatalmente oficializaria seu namoro no sábado, após o ato de bravura.

       Só que, combinado com seus subordinados amigos, no momento em que ele se levantasse para enfrentar o touro, apontaria para Selma no meio do circo e diria pra todo mundo ouvir que aquele ato era em sua homenagem como prova do início de um grande amor. Nisso os amigos o segurariam e, como a turma do “deixa disso” seria grande ele sucumbiria à pressão e não faria a proeza “que tanto desejava fazer pra Selminha”. Pelos seus planos, imediatamente iria sentar-se ao lado dela formalizando, assim, o início do namoro.

       Acertaram com duas amigas de Selma, que ficaram de ir com ela ao circo escolhendo um lugar entre as cadeiras, de maneira que ficasse uma cadeira livre pro Juca sentar assim que terminasse a proeza. As amigas imaginavam que a coisa realmente aconteceria, nada sabendo da tramoia.

       O azar do Juca: a reunião e combinação com os amigos, se dera no prédio do Fórum, onde trabalha Rodrigo, um dos amigos, numa empresa de serviços terceirizados. Porém, quem ouviu a tramóia? Eu, o Gerente da Secretaria do Juízo, chefe da turma dos servidores de Justiça do Fórum e auto intitulado "Bandido Malvadérrimo Ultra Máxime Vega Aviltante".

       Estudei toda a situação, e percebi que tudo já estava direcionado: na quinta-feira, as amigas de Selma, todas gatérrimas, surgiram com ela no prédio do Fórum que, toda emocionada, chegou a dizer “pensei que não existissem homens tão valentes”, como se tirasse a frase de algum filme da sessão da tarde. Possivelmente já se apaixonara pelo sujeito.

       Após a saída de quase todos, ficando só o Rodrigo que trabalha no Fórum, entra eu na jogada:

       - Rodrigo, tive pensando... Realmente a ideia do Juca Faria seria boa se fosse verdadeira. A Selma do Zé Curisco vai ficar decepcionada e furiosa ao ver que ele na realidade não iria enfrentar o touro é nada. Tenho certeza: não vai namorar com ele nunca!

       - Vai sim, sô! Nóis vâmo fazê o trem direito! Vamo caprichá qui o Juca merece...

       E eu, como se utilizasse uma didática de professor para alunos sem experiência:

       - Rodrigo, vocês são novos e ingênuos. Mulher é bicho esperto e percebe a armação facilmente, mesmo sendo nova igual a Selma. Já vi vários casos parecidos e ela vai é tomar ódio do Juca. Garanto.

       E continuei no meu blá blá blá com Rodrigo, que passou a querer procurar o Juca e convencê-lo a mudar seus planos. Disso eu lhe impedia, explicando que a moça já estava toda entusiasmada e o remédio agora era a turma deixar o Juca enfrentar o touro de verdade. Sem o Juca ficar sabendo. Aí, é certo que Selma iria se desmanchar de vez e ficaria eternamente na mão do Juca.

       – Mas cumé qui nóis vai fazê isso?

       - Chama a galera. Pode usar o telefone ou ir atrás deles.

       Foi e chamou. Gastei mais de uma hora, suando a camisa, dando cafezinho e suco pros carinhas, mas consegui o intuito. Não tinha o que ensaiar. Era só ficarem quietos. O mais difícil era ficarem calados e não deixarem o Juca ficar sabendo, pois “destruiriam um futuro e promissor casamento”.

       Pra aumentar o entusiasmo deles, simulei uma ligação telefônica teatralizando como se tivesse ligado para um restaurante da cidade de nome Zagaia, fingindo conversa com a proprietária que “ficara entusiasmada com o heroísmo” a ponto de, após a façanha, oferecer um engradado de cerveja aos noivos e aos amigos do herói.

       Obviamente, no sábado, saí de Piumhi e fui a São Roque assistir ao espetáculo do “Gran Circo Toradas de Madry”.

       Corria o espetáculo normal com palhaços em bezerrões maiores, algumas montarias em garrotinhos e vacas e, a todo o momento era anunciado “Não perrrrrcam hoje, o grraannde touro Bandido 2, vindo dirretamente da Rrrrrede Globo de Televisão para participar de nosso espetáculo, caso exista algum corajoso toureiro nesta belíssima cidade”!

       E, a cada vez que era anunciado, Juca Faria, mais corajoso por doses de pinga tomadas minutos antes, se levantava e fazia um desenho de coração no ar, exibindo-se a Selma, que tinha diversas reações tipo arrumar os cabelos, enxugar lágrimas emotivas, suspirar, etc.

       Tudo ia transcorrendo muito bem até que chegou a hora final: Bandido 2, o temível.

       Primeiramente uma gravação altíssima e num som que melhorou a qualidade do que era tocado até então: Rufaram tambores, tocaram os clarins como se estivesse na Plaza de Toros de Las Ventas, a mais famosa das arenas da Espanha. E soltaram o touro!

       Gente, o bicho era bravo demais!

       Enfurecido, correndo e se mostrando altaneiro, entra o touro na arena do circo. Parecia o princípio de um balé macabro, que não deixava de ser fascinante.

       No entanto, o contraste do negro brilhante do touro, com o vermelho também brilhante das cores do cetim ensebado dependurado circo afora, me fizeram tremer de medo da situação: esse touro iria estraçalhar Juca Faria!

       Já acenava pra ele, que nem me via - só se direcionava pra Selma, enquanto o touro prosseguia na demonstração de força bruta e fúria. O animal parte para um dos lados, acerta uma das grades que o cercava no mesmo momento em que o som falha, todo mundo se assusta, e fica um silêncio profundo, partindo do coração da assistência.

       Aí eu berro, cortando o silêncio:

       – Juca! Nem brinca! Deixa eu falar com você!

       E o Juca:

       - Num diânta não, ninguém me disvia! O coração de um homem que ama não disiste e eu posso cuêsse bicho!

       Aí o povo já berrou um olé, não entendendo nada.

       O som é recuperado e começa o anúncio do locutor.

       - Caríssima plateia do Gran Cirrrrrco Toradas de Madri, presente nessa belíssima cidade! Todos já devem ter perrcebido a força e selvageria do imbatível touro Bandido 2, especialmente trazido dos confins televisivos da cidade de Barretos! É com grrande orgulho que aqui o apresentamos...

       - BRÁ! - o Bandido 2 acerta outra parte da cerca, parecendo que ela não suportaria muitas novas investidas.

       E continua o locutor:

       - Senhoras e senhores! Até agora, ninguém, nem no Brasil nem no mundo, enfrentou a ferocidade de Bandido 2! Mas ficamos sabendo de boatos sobre um representante daqui da cidade! Dizem que é crivado de ousadia e coragem suficiente para enfrentá-lo. MAS TEM QUE SER HOMEM DE MUITA FIBRA, SENHORAS E SENHORES. ESTARIA ELE AQUI PRESENTE?

       E Juca, na coragem inocente, levanta sua mão e berra:

       – Eu infrento o animár!

       Silêncio total no circo, pela plateia. E o locutor:

       - Senhoras e senhores, que fibra! Que rrrraça! Isto é inédito! Um macho de verdade parece ter surgido pra enfrentar a selvageria!

       E o touro não parava na arena, continuava negro reluzente, investindo até na sombra. E o locutor vai até onde o Juca estava, microfone em punho:

       - Qual é o seu nome, grande homem? O que o faz ser tão corajoso?

       - Ieu sou o Juca Faria. Enfrento o trem pur causa daquela muiézinha alí, ó – e apontava o dedo pra Selma, que se levantou exibindo novamente o corpo, acentuada a beleza pela calça branca e a blusa vermelha coladas, – é a Selminha do Zé Curisco, e se fô priciso eu morro pur causa dela!

       Uma ou duas pessoas bateram palmas pra ele, mas continuava mesmo era o silêncio medonho, que todo o mundo estava de queixo caído com a coragem do rapaz.

       E continuava o touro, demonstrando sua fero/intimidade com a morte, parava um pouco pra passar a mão direita dianteira no chão como se procurasse o que despedaçar, tornando a girar pela arena exibindo a ferocidade. E o locutor:

       - É impressionante, minha gente! O nome dele é Juca Faria! E é daqui de São Rrrrroque de Minas! Vamos ao confronto de verdade!!!

       Era preparado o grande final. Era a vez das evoluções e das acrobacias do matador. Só que o matador era o touro...

       E Juca Faria, definitivamente sem saber o que fazer, olhando para os lados no afã da salvação, procurando a turma do deixa-disso, já suando frio com a ausência dos comparsas, descobre a turma dos amigos que iria “persuadi-lo” a uma distância de uns quinze metros sem fazer nada, a não ser todos se abaixarem com seu flagrante. Aí, berra cortando o último silêncio:

       - Ô FIEDAPUTADA, QUÊ QUI NÓIS CUMBINÔ? CÊIS VAI ME ABANDONÁ, DISGRAMA?

       Metada dos amigos riu, a outra metade, mais medrosa, não sabia o que fazer.

       Juca, acuado, caminha em direção à saída, retira-se gesticulando, derrotado e furioso.

       Nisso, o público já delirava em gargalhadas num barulho ensurdecedor.

Meu delírio foi duas vezes maior, e ainda pude ver Selma, humilhada, com o rostinho lindo escondido por trás das mãos e entre as pernas. Amigas tentavam, em vão, consolar a garota.

A partir daí acabou a possibilidade de continuação de qualquer espetáculo, com a plateia efusivamente satisfeita com toda a história.

       Aliviado, após isso tudo, tentando contornar a situação, ainda consegui convencê-los a irem até o restaurante Zagaia, lugar para onde voei na frente deles e, em segredo, banquei o tal engradado de cerveja pros amigos do herói, que não foi capaz de aparecer.

       Selma do Zé Curisco, juntamente com as amigas, ainda passou por lá, a calça branca colada já toda encardida pelo vermelho do cerrado regional, os olhos verdes lindos inchados. Pude vê-la deixar sua impressão, sob lágrimas:

       - Pensei que Juca fosse homem! Nunca fui tão humilhada na minha vida. Foi muita decepção e esse sujeito não vale é nada...

       Resultado: Desde então, Juca Faria não pegou nem resfriado na cidade e ganhou o apelido de “Bandidão”

 

COELHO JÚNIOR, Cândido. Na bala da palavra: crônicas e letras – São Paulo : Scortecci, 2014. – 1ª ed.

Cândido Coelho Jr.

 

Cândido Coelho Jr.

Crônicas e Causos.
Escritor, Bacharel em Direito, pós-graduado em Processo Civil, Direito Civil, do Trabalho e Direito Público.
Autor do livro NA BALA DA PALAVRA, Crônicas e Letras. São Paulo: Editora Scortecci, 2014.


Cronista apaixonado pela vida, é cristão presbiteriano, humorista nato e tem a família como base de toda e qualquer sociedade.
Por outro lado tem uma memória dotada de refinada capacidade de observação mesclada à mente fértil, que funciona como poderosa usina de sonhos.
Sustenta que escreve pra dizer que sabe do que gosta e gosta do que sabe.

canditur@uol.com.br

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