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CAPITÓLIO: PERITOS VÃO ATÉ A REGIÃO DOS CÂNIONS PARA INVESTIGAR O QUE CAUSOU A QUEDA DA ROCHA QUE MATOU 10 PESSOAS

Entre os profissionais estão especialistas das polícias Civil e Federal e em geologia

10:14:17, JAN 01, 2022 Atualizada em 14/01/2022 s 10:01:34 Fonte: G1 Centro Oeste

 

Dentro do curso das investigações sobre a tragédia ocorrida em Capitólio no último sábado (8) que matou dez pessoas, uma equipe de peritos da Polícia Civil, especialistas em geologia e um perito da Polícia Federal, também especialista da área, foram até o município na região dos cânions, no Lago de Furnas, nesta quarta-feira (13).

Os trabalhos executados nesta quarta-feira fazem parte das investigações e já estavam previstos, como mencionado pelo delegado responsável pelo inquérito, Marcos Pimenta, em coletiva na última segunda-feira (11). O foco, neste momento, é tentar entender o que provocou o deslocamento da rocha e, principalmente, se era possível ter previsto a tragédia.

 

Há, neste momento, três investigações paralelas: da Polícia Civil, do Ministério Público e da Marinha do Brasil. A ideia é a mesma: de quem é a responsabilidade de fiscalizar o local do acidente que também deixou 27 feridos.

em contato com a União, Furnas, Marinha do Brasil e o Estado de Minas Gerais. Um dia após o acidente, o prefeito de Capitólio, Cristiano Geraldo da Silva (Progressista), disse que nunca havia ocorrido nenhum acidente como esse e, por isso, não há um estudo ou análise geológica por parte da Prefeitura. O Município de Capitólio não respondeu ao g1 sobre o ocorrido.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da 2ª Promotoria de Justiça de Piumhiinstaurou um inquérito civil para apuração os fatos do acidente que matou dez pessoas no último sábado (8), em Capitólio. Em publicação nesta quarta-feira (12), o MPMG informou que foi expedido também um ofício ao Município que solicita informações no prazo de cinco dias.

Em coletiva realizada na terça-feira (11), a Polícia Civil informou que os trabalhos investigativos entraram em nova fase, com intuito de proceder com possíveis responsabilizações da queda de parte do cânion.

O acidente ocorreu entre 12h e 13h do último sábado, quando uma rocha se desprendeu de um cânion e caiu sobre a água onde navegavam várias embarcações. Dez pessoas morreram e 27 ficaram feridas. As buscas por fragmentos de corpos e objetos que pudessem auxiliar nas investigações estão suspensas.

Ministério Público

O MPMG questionou seguintes tópicos ao Município de Capitólio:

  • Se tinha informações sobre o risco existente para os turistas, tanto na região dos cânions quanto em outros locais;
  • Sobre o desabamento de rochas/deslizamentos ou a inundações bruscas/cabeças d’águas;
  • Se existe mapeamento e identificação das áreas consideradas de risco, especialmente em relação a deslizamentos/desabamentos e inundações bruscas;
  • O plano emergencial em situação de desastre;
  • Se existe algum plano para evitar eventos como o ocorrido no sábado (8). Caso tenha, quais as providências o Município pretende adotar.

A Lei 12.608/2012, que Instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC) e que dispõe sobre o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, ressalta no artigo 2º que é dever da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios adotar as medidas necessárias à redução dos riscos de desastre.

Polícia Civil

Segundo o delegado regional de Passos que responde por Capitólio, Marcos Pimenta, já foram ouvidas, até o momento, diversas pessoas, incluindo prefeitos da região, vítimas leves e usuários do local.

“Primeiramente a Polícia Civil acolheu os familiares. Posteriormente nós conseguimos fazer a identificação formal das 10 vítimas possibilitando assim o enterro digno. Concomitante a essa ação nós temos três grupos de trabalho, um com sede em Alpinópolis, outro na Delegacia de Piumhi e no núcleo de Passos. Já ouvimos diversas pessoas, usuários do local, vítimas leves, o prefeito de Capitólio e o prefeito de São José da Barra já prestaram depoimentos, declarações, apresentaram documentações. A Polícia Civil fará um estudo técnico no local com ajuda de geólogos visando no final das investigações, verificar se houve ou não, responsabilidade de terceiros, se alguma obra prejudicou a rocha, mas é muito prematuro, temos que ter cautela e o nosso foco inicial foi acolher as vítimas e possibilitar um enterro digno”, pontuou.

Quanto ao apoio de geólogos, o delegado informou que será uma incumbência da perícia criminal, em Belo Horizonte, que avalia quando o profissional poderá deslocado para a região de Capitólio.

“Hoje mesmo eu falei com geólogos da Universidade Federal de Ouro Preto, temos um contato também da Sociedade Brasileira de Geologia, então a Polícia Civil não poupará esforços para exaurir todo e qualquer questionamento visando que caso tenhamos algumas rochas dessas características nós possamos evitar que isso aconteça no Mar de Minas, que é um local de riqueza do mineiro, é uma área linda de turismo, nós não podemos deixar que aconteça novamente”, disse.

O Lago de Furnas foi formado em 1963, onde a área onde a empresa opera foi desapropriada pela União, para a construção da Hidrelétrica de Furnas e concedida à usina, que se tornou responsável pela gestão do reservatório, de acordo com o contrato de concessão.

Sendo a responsável pela área, o g1 questionou à empresa se além de operar a hidrelétrica, ela também não seria responsável por fiscalizar e monitorar áreas de acesso ao público. A empresa respondeu a reportagem por meio de nota:

"Furnas não possui a concessão do lago, mas sim do serviço de geração de energia elétrica por meio da água do reservatório. O uso do lago para fins de produção de energia elétrica não afasta a possibilidade de utilização para outras finalidades, nos termos da Lei Federal nº 9.433/97, que estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos, como é o caso do turismo, cuja responsabilidade e fiscalização não competem a Furnas. A empresa ressalta que sua gestão está restrita exclusivamente a atividades que se correlacionem com a produção de energia", diz a nota.

Marinha do Brasil

Desde 2020, a Marinha do Brasil (MB), conta com um ponto de atuação em Capitólio. Desde então, realiza intensas fiscalizações que se limitam a averiguar embarcações e condutores.

A reportagem procurou a Marinha para questionar se o órgão também não seria responsável pelos banhistas, dentre outros questionamentos. Contudo, não houve resposta das solicitações até a última atualização da matéria.

g1 foi orientado que acessasse um painel de notas emitidas sobre o fato. Contudo, o último posicionamento foi emitido no sábado e está desatualizado.

"O Inquérito aberto para apurar as circunstâncias do acidente/fato ocorrido analisará os aspectos sobre a segurança da navegação, a habilitação dos condutores envolvidos, o ordenamento aquaviário do local e a observância das normas e legislações emanadas pela Autoridade Marítima. A Prefeitura de Capitólio tem regulamentado, por meio do Decreto nº 32, de 27 de fevereiro de 2019, o ordenamento do espaço aquaviário sob sua jurisdição. Nesse sentido, a Marinha comunica que toda a área de interesse encontra-se interditada, para as devidas verificações. A Marinha se solidariza com os familiares, parentes e amigos das vítimas, e ressalta que continuará no local, prestando apoio aos órgãos envolvidos. Para isso, determinou o deslocamento imediato de pessoal de apoio e de um Helicóptero para a região de Capitólio", diz a nota do dia 8 .

Ministério do Desenvolvimento Regional

Sobre as responsabilidades da União acerca da área onde ocorreu a tragédia, o g1 pediu esclarecimentos ao Ministério do Desenvolvimento Regional, que respondeu que todo ambiente é sujeito a riscos e mapeamentos de prevenção deve ser feito quando a probabilidade é importante; a responsabilidade deste levantametno seria do Município.

Confira abaixo o posicionamento:

"Risco de Desastre é a relação existente entre a probabilidade de que uma ameaça de evento adverso ou acidente determinado se concretize, o grau de vulnerabilidade do ambiente em que o risco está inserido e a exposição de pessoas e bens a esse evento. Ao que parece, não há registros de queda de rochas em Capitólio na região do acidente. A atividade turística é realizada no local há muitos anos.

Todo ambiente é sujeito a riscos. Geralmente, o mapeamento de riscos para efeitos de prevenção e mitigação de desastres deve ser feito quando a probabilidade é importante.

Após o evento, sinal evidente de risco foi constatado, e uma vistoria deverá ser feito em todo o cânion para verificar a estabilidade daquelas rochas e a atividade turística deve ser interrompida até que as condições de segurança sejam garantidas.

A responsabilidade de mapear os riscos no território é do município. A União e os Estados apoiam quando solicitados e quando a capacidade extrapola a do município.

A Polícia Civil de Minas Gerais e a Marinha, órgãos vocacionados pela apuração das condições do acidente é que indicarão se eventos anteriores denotavam a necessidade do mapeamento de riscos e do estabelecimento de perímetros para evitar a exposição de pessoas. Com isso, os responsáveis poderão ser identificados".

Estado

Em coletiva sobre o assunto na segunda-feira (10), o governador Romeu Zema (Novo) falou por alguns minutos com a imprensa sobre o fato e respondeu perguntas. Em um dos posicionamentos, Zema destacou se tratar de um fato inédito.

"A região nunca foi acometida no passado com fato semelhante. Sabemos a partir de agora que é uma região sujeita a riscos e que vai precisar de análise de geólogos. Turismo com segurança, é possível sim. Queremos que toda região, a partir de agora, tenha um cuidado adicional. Será exigido e teremos uma análise, talvez anualmente, dos riscos. Mas lembro que o que aconteceu ali é o que acontece muitas vezes Brasil a fora, em que uma rocha rola de uma montanha sem nenhuma previsão", disse.

"Tivemos a infelicidade de atingir uma lancha com 10 pessoas e tivemos essa fatalidade. Será feita apuração pela Polícia Civil, Marinha e vamos aguardar, eu não sou nenhum especialista nesta área, mas quero deixar claro que o que aconteceu ali é algo inédito. Nunca aconteceu nos últimos 100 anos, seria algo muito difícil de prever", completou.

  • O deslizamento ocorreu por volta de 12h30. Ainda não se sabe o que causou o acidente
  • Quatro embarcações foram atingidas, segundo os bombeiros
  • Dez pessoas morreram
  • Uma equipe de mergulhadores está no local e não há previsão de término das buscas (elas foram suspensas durante a noite e foram retomadas na segunda)
  • 27 pessoas foram atendidas e liberadas
  • A primeira informação dos bombeiros dava conta de 20 desaparecidos, mas o número foi atualizado para 3 (todos foram encontrados).
  • Bombeiros e Polícia Civil estão no local; a Marinha foi acionada e vai investigar a causa
  • Defesa Civil havia emitido um alerta sobre chuvas intensas na região com possibilidade de "cabeça d'água"; Marinha também investiga por que os passeios foram mantidos

Todas as vítimas fatais estavam na mesma lancha, chamada "Jesus". Um homem de 68 anos e natural de Alpinópolis foi primeira vítima identificada do desabamento de rochas.

Veja abaixo quem são as vítimas da tragédia em Capitólio:

  • Julio Borges Antunes, 68 anos, natural de Alpinópolis (MG)
  • Maycon Douglas de Osti, 24 anos, nascido em Campinas
  • Camila da Silva Machado, 18 anos, nascida em Paulínia
  • Sebastião Teixeira da Silva, 64 anos, natural de Anhumas
  • Marlene Augusta Teixeira da Silva, 57 anos, natural de Itaú de Minas
  • Geovany Teixeira da Silva, de 37 anos, natural de Itaú de Minas
  • Geovany Gabriel Oliveira da Silva, 14 anos, natural de Alfenas
  • Thiago Teixeira da Silva Nascimento, 35 anos, natural de Passos
  • Rodrigo Alves dos Anjos, 40 anos, nascido em Betim
  • Carmem Pinheiro da Silva, de 43 anos, natural de Cajamar (SP)

Feridos

Segundo o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, 32 pessoas foram atendidas por causa do acidente, a maioria com ferimentos leves.

  • Dessas, 27 foram atendidas e liberadas: 23 delas da Santa Casa de Capitólio e outras 4 da Santa Casa de São José da Barra, a 46 km de Capitólio.
  • 2 pessoas com fraturas expostas foram para a Santa Casa de Piumhi, a cerca de 23 km de Capitólio e tiveram alta entre domingo (9) e segunda (10);
  • Um paciente internado na Santa Casa de Passos, a 74 km de Capitólio, é um jovem de 26 anos e morador de Pimenta (MG).

Lugar turístico

A região de Capitólio e outras cidades banhadas pelo Lago de Furnas, no Centro-Oeste de Minas, é bastante procurada por turistas por sua beleza natural.

Assim como outras partes do estado, a região tem sido atingida pelas chuvas recentes: na sexta-feira (7), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) havia emitido um alerta de chuvas intensas, que durariam até a manhã deste sábado.

No sábado (8), Defesa Civil de Minas Gerais havia feito um alerta sobre chuvas intensas e a possibilidade de ocorrências de "cabeça d'água' em Capitólio, mas não há confirmação que essa foi a causa do acidente. A Marinha disse que investiga o motivo de os passeios serem mantidos.

O porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas, Pedro Aihara, explicou que a formação rochosa do local é do tipo sedimentar, o que torna as estruturas dos paredões frágeis, e a quantidade de chuvas agravou a situação por acelerar a erosão. Veja a explicação sobre a situação do solo:

"A gente tem uma formação rochosa que é basicamente composta por rochas sedimentares, então são rochas que naturalmente têm uma resistência muito menor à atuação dos ventos, da água, dos elementos naturais que atuam sobre a região", explicou Aihara.

"Uma outra situação que acabou infelizmente agravando foi porque a rocha cai numa trajetória perpendicular. Geralmente, quando a gente tem ruptura por tombamento, a rocha sai de uma forma mais fatiada, ela escorre por aquela estrutura e cai de uma forma ou diagonal ou então mesmo em pé. Nesse caso, como a gente teve esse tombamento perpendicular, e pelo tamanho da rocha, a gente acabou tendo essas pessoas diretamente afetadas", explicou o bombeiro.

Para o especialista em gerenciamento de risco, Gustavo Cunha Melo, uma tromba d'água – inicialmente citada pelos bombeiros como motivo do deslizamento – pode ter agido como um gatilho para o deslizamento, mas não foi necessariamente a causa do problema.

Para Melo, a rocha se desprenderia de qualquer jeito, por causa da erosão:

"Essa rocha já estava com muita erosão, totalmente fragmentada, ela iria desabar em algum momento. A tromba d’água pode explicar o desabamento neste momento? Pode, assim como também não precisava nada – ela ia desabar em algum momento por erosão, por um processo natural", afirmou.

Nestes casos, segundo o especialista, o gerenciamento de risco consiste em isolar o local.

"Não tem muito o que fazer nessas situações. O gerenciamento de risco é: manter distância. Você tem que isolar a área. A única gestão de risco que é feita é isolar a área. Infelizmente ali as embarcações estavam muito próximas e o desabamento aconteceu nesse mesmo momento", explicou Melo.

O geólogo Fábio Braz, da Sociedade Brasileira de Geologia, relacionou o desprendimento das rochas às chuvas – intensas e por um longo período – e classificou o acidente como "raro":

"Fica cada vez mais evidente que realmente as fortes chuvas contribuíram para a queda desse bloco. Esse fraturamento vertical é típico de regiões de cânion. A gente também observa nos cânions do Rio São Francisco o mesmo tipo de feição", explicou.

"É um fenômeno raro. Não descaracteriza o apelo turístico da região de Capitólio. É preciso, sim, que sejam tomadas, a partir dessa tragédia, as precauções necessárias, as distâncias, que seja calculado por especialistas na área de geotecnia qual a distância segura desses paredões", disse Braz.

Passageiros tentaram avisar

Um segundo vídeo mostra passageiros de uma das lanchas tentando avisar sobre o deslizamento da pedra segundos antes de ela cair:

 

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